junho 6

Podcast A Memória Viva Nasce a Cada Dia

A ação audiovisual intitulada “ A memória viva nasce a cada dia” é um projeto autônomo e independente, organizado pela Experimentação Audiovisual Claudia Ferreira, coletivo de cine popular, que tem como objetivo resgatar as memórias e histórias indizíveis, clandestinas e silenciadas. Acreditamos que ao documentarmos e registrarmos as narrativas de sujeitos anônimos e das pessoas mais simples ,estamos contribuímos para realização de uma releitura e reinterpretação de um passado; de uma história, muitas vezes, transmitidas pelas vozes hegemônicas que acabam construindo e edificando uma única versão, um único fato. Portanto, ao fazer o emergir dessas memórias, estamos estimulando a presença das vozes dissonantes, outras perspectivas possíveis para o entendimento de como o nosso processo histórico e social foram se delineando a partir de práticas opressivas e coercivas contra determinados segmentos da população historicamente invisibilizados . A memória viva nasce a cada dia é também um processo permanente de resistência das memórias indizíveis.

Diante dessa perspectiva de como é organizado e produzido esse projeto audiovisual, apresentamos um fragmento de uma história contada a partir do povo, das pessoas mais simples e anônimas. Essas narrativas trazem as histórias sobre o bairro São João, a sua gente; a festa de São João, as batucas, a fogueira de são João e as famílias negras que outrora por lá habitaram. São narrativas contadas a partir de seus moradores e moradoras que são as memórias vivas desse lugar. São indubitavelmente verdadeiros patrimônios culturais da cidade de Brotas (SP).

Gostaríamos de esclarecer que de maneira alguma essa iniciativa é algo completo e concluído. Na verdade são fragmentos e impressões que resolvemos compartilhar com tod@s que tenham interesse e curiosidade em conhecer uma história não contada e negada por alguns segmentos da sociedade, como por exemplo, as elites locais, poder público, escolas e outras instituições oficiais. Esperas que essas impressões e reflexões possam contribuir de alguma forma para a história cultural e social do município de Brotas (SP).

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Diante da nossa repentina saída da cidade de Brotas (SP) não foi possível prosseguirmos adiante com o projeto “A memória viva nasce a cada dia”. Então, decidimos, produzir em parceria com o coletivo, Desobediência Sonora, um documento em formato de podcast contendo os áudios das entrevistas que conseguimos coletar durante o tempo que perdurou o nosso projeto.
Esse fragmento disponível no formato de podcast tenta resgatar , relatar e vasculhar a história e a memória de pessoas anônimas que tem ou tiveram alguma relação com a história do bairro São João, na cidade de Brotas (SP). Essa ação audiovisual é realizada de forma autônoma e independente, ou seja, sem vinculo com partidos políticos, sem ligação com Igrejas e empresariado. Nós, uma dupla recém chegada a cidade de Brotas (SP), nos deparamos com algumas histórias contadas,sobretudo, pelas pessoas mais velhas , referente ao bairro de São João e sobre a saudosa festa de São João, as batucadas e as famílias negras que organizavam coletivamente o festejo.
Ouvimos por varias vezes o nome de um tal de João Julião, descobrimos que ele foi um homem negro que e era um dos principais organizadores e articuladores da festa. João Julião era rezador e descendia de negros escravizados. Infelizmente, ele já era falecido quando da nossa chegada à Brotas (SP). A partir daí começamos a conhecer e a entender a sua importância na construção de todo o processo da festa do São João.
Ao nos depararmos com histórias tão ricas sobre esse pequeno território, resolvemos iniciar de alguma forma uma aproximação com os habitantes desse bairro. Decidimos entrar em contato com os antigo(a)s moradores do bairro com a finalidade de registrar e documentar a história e memória dessas pessoas que conheceram João Julião e sobre as outras narrativas envolvendo as batucadas, as famílias negras, o pisar descalço na fogueira e outros lembranças do lugar. Inicialmente pensamos em mapear e entrar em contato com as pessoas que de alguma forma tinham histórias para nos contar, que possuíam lembranças sobre o bairro, suas festas e de sua gente; e que pudessem compartilhar conosco. Decidimos efetuar o registro dos depoimentos em audiovisual e sugerimos o nome dessa ação “ A memória viva nasce a cada dia”.

Paralelamente, a isso , nos encaminhamos até a Biblioteca Municipal de Brotas (SP) com a finalidade de obter mais referências e informações que viria a nos auxiliar nessa empreitada. Mas, para nossa surpresa, nada foi encontrado. Uma história apagada!.
O processo de construção desse material começou a surgir no primeiro semestre de 2016 com o mapeamento e a ida até as casas das pessoas que seriam convidadas a participar desse projeto. Foi um percurso de muitas conversas e a criação gradual de vínculos de confiança. Uma importante fonte de informação para nós, foi uma mulher chamada Marcia, proprietária de um pequeno bar no bairro. Suas dicas e informações foram essenciais para chegarmos até as pessoas desejadas.
Logo no inicio, decidimos fazer o convite aos moradores e moradoras para participarem uma roda da memória a ser realizada no centro Cultural de Brotas (SP) no mês de maio, Infelizmente, não deu muito certo, poucos convidados compareceram, entre eles, Terezinha matozinho, Pedro Gross e Dirceu Almeida. Apesar do comparecimento ínfimo dos convidados, as histórias e memórias ativadas durante essa iniciativa foi extremamente proveitosa.
Acreditamos que o não comparecimento das pessoas foi devido a questão de muitos deles serem idosas e encontrarem dificuldades de se locomoverem até o local, e também, acreditamos no fator inibição diante das câmeras e a conseqüente falta de confiança em nós. Daí por diante resolvemos mudar a estratégia de atuação e decidimos começar a ir até a casa das pessoas. Construir afinidades. A situação de aproximação com as pessoas, ocorreu..
Diante do andamento do projeto percebemos que as falas dos entrevistado(a)s diziam respeito a uma espécie de declínio gradual da festa de São João comparando com os dias de hoje.Atualmente o que seria para ser uma festa se resume em uma missa e nada mais. Essa situação de descaracterização da festa de São João nos intrigou e fizemos diversas indagações referente ao fim de uma festa organizada pelo povo de forma autônoma, popular e solidaria. Acreditamos que o fim daquela outrora,animada e popular festejo tem relação com a desarticulação da maioria das famílias negras que moravam de aluguel em barracos de madeira localizados em terrenos próximo a Igreja de São João.
Em algum momento essas famílias foram retiradas do local pelo poder público com o pretexto de tira-los do aluguel e daquelas precárias habitações para transferi-los para o Taquaral, periferia da cidade, mais especificamente para um terreno que leva o nome de Mutirão e onde essas famílias receberiam os materiais necessários para erguer as casas na forma de mutirão. Bem, nos deslocamos até o local conhecido como Mutirão e para onde parte das famílias foram realocadas pelo poder público. Durante as conversas realizadas com alguns moradores, descobrimos que as famílias não possuem documentação que comprove efetivamente que o terreno lhes pertencem de fato. Até hoje, nunca foram entregues a documentação dizendo que essas casas são suas. Diante do delineamento dessas informações, nos certificamos com, um cenário que nos permite dizer que houve um processo de higienização no bairro São João promovido pelo poder publico, empresariado e Igreja.E, como esse processo acabou atingido um segmento populacional especifico social e historicamente marginalizado e estigmatizado, no caso, referindo-se às famílias negras. Configura-se em um processo de racismo estrutural.
Hoje em dia a principal festa religiosa da cidade é a festa de Santa Cruz, realizada no bairro de Santa Cruz.Atualmente a igreja católica juntamente com empresários locais detém o monopólio das festas, entre elas, a festa de Santa Cruz, que em contrapartida ao desestruturação da,outrora, pomposa e carismática festa do são João, se tornou a principal festa da cidade nos dias de hoje. É, absolutamente identificável nos depoimentos que captamos e durante as varias conversas informais, o descontentamento latente com alguns representantes da igreja e também do poder publico diante do processo de mercantilização em que foi sendo imposto e promovido por estes há uma festa religiosa e popular, antes feita e organizada pelo povo e para o povo.

Quando nos referimos que esse trabalho foi uma tentativa de algo muito mais abrangente e profundo é que infelizmente, acabou ocorrendo a nossa repentina saída da cidade e isso provocou uma paralisação temporária do projeto.
Apesar da impossibilidade de prosseguirmos com o projeto. Decidimos dar visibilidade as histórias coletadas sobre as pessoas que são a memória viva de um passado e presente repleto de significados, resistências e curiosidades. Esperamos que esse material possa contribuir de alguma forma para manter a memória viva de um lugar, de um tempo e de sua gente.

 

 


 

#1 – Dona Dita

Entrevista com “dona” Dita, 96 anos. História do bairro São João/Festa de São João em Brotas (SP). 2016

No primeiro semestre de 2016, teve inicio a idealização e concretização do projeto A memória viva nasce a cada dia, uma ação audiovisual construída de forma autônoma e independente que busca através do audiovisual realizar o resgate das memórias e histórias dos antigos moradora(e)s do bairro São João, localizado na cidade de Brotas (SP). O São João é um dos primeiros bairros a surgirem na cidade. O São João e o Pitu Acesso já foram em um passado não muito distante, territórios habitado por famílias de trabalhadores negra(o)s que tiveram um papel valoroso e importantíssimo para história cultural e social da cidade de Brotas (SP). Em uma de nossas constantes idas e vindas pelo território que compreende o São João, conseguimos ter o contato da simpática “dona” Dita, mulher negra de 96 anos, que nos relatou a sua história e vivência no bairro São João. Dita relembra desde quando comprou um terreno no bairro do São João e foi residir por lá. Na época em que se estabeleceu no bairro, Dita disse ter tido um árduo trabalho para limpar o terreno onde iria construir sua futura casa. Foi uma ação trabalhosa. No inicio, o São João era uma área que tinha muita mata e composta por casas dispersas uma das outras.

As lembranças das festas do São João estão extremamente vividas na memória de “dona” Dita, ela nos descreve sobre a pompozidade e alegria de tal acontecimento. Diz, ter conhecido o saudoso João Julião, rezador e um dos mais ativos organizadores da festa do São João. As enormes fogueiras e os brincantes dançando ao som dos tambores é revivido por Dita com detalhes preciosos. Uma das características da festa na época era a sua organização coletiva e popular, diferentemente do que acontece hoje em dia, em que as festas religiosas são exclusivamente organizadas pela igreja e empresariado, dando, assim, um viés fundamentalmente comercial para as festas, onde Igreja, Poder Publico e Empresariado organizam e estruturam a configuração das festas religiosas que acontecem no município.

Mãe de quatorze filha(o)s, Dita casou-se com quatorze anos de idade e diz ter feito o parto de todas as filha(o)s. Além de ter casado muito cedo, Dita foi muito controlada e maltratada pelo companheiro; e teve uma relação opressiva com o companheiro por cerca de quarenta anos, desde quando casou-se até a morte de seu companheiro. A seguir ouça o áudio contendo a entrevista na integra com a “dona” Dita.

Download do arquivo – http://www.mediafire.com/file/9b457w2dlbwdg99/Mem%C3%B3ria+Viva+%231+-+Dona+Dita.mp3