abril 18

Podcast Pedalada – Ecologia Audiovisual

A PEDALADA é uma iniciativa autônoma e independente que busca registrar e resgatar a memória, práticas e costumes populares de diversos povoados, comunidades tradicionais e quilombolas pela região do semiárido baiano. A locomoção pelo território foi feita com a utilização de duas bikes onde pedalamos por diversos povoados e comunidades em torno do povoado Pedra Alta, Araci (BA). O uso da bicicleta nos possibilitou ter uma relação mais direta com as pessoas dos povoados e comunidades que visitávamos.

O projeto PEDALADA – Ecologia Audiovisual foi pensado e organizado desde o inicio para ser uma ação autônoma, descentralizada e independente sem nenhum vinculo com o Estado, iniciativa privada ou religiosa. Antes de efetivamente iniciarmos nossa pedalada, decidimos construir um mapa dos percursos e lugares que pretendíamos estar e à partir daí colocar efetivamente em prática nossas intenções de coletar depoimentos das pessoas anônimas da região que de alguma forma entendíamos como sujeitos produtores de conhecimentos e que são a memória e história viva daquela região. A Pedalada teve a oportunidade de estar em contato com uma riqueza cultural, social e ambiental instigante e riquíssima. Coletamos depoimentos valiosos de rezadeiras, feiticeiros, pescadores, artesãs, parteiras e as pessoas que de alguma forma tinham algo para nos informar e compartilhar através de seus respectivos cotidiano. Devido aos custos que acabamos tendo com alguns equipamentos e principalmente com as bicicletas, acabamos optando por paralisar temporariamente o projeto e consequentemente dividi-lo em duas partes. Decidimos também dar dois sentidos para essa ação audiovisual, uma delas é disponibilizar através do site do Desobediência Sonora os áudios adquiridos durante nossas paradas e convivências pelo território percorrido, e que esse material possa ser disponibilizado e ser também um documento que conte um pouco da história e memória local. A segunda definição é que decidimos transcrever os depoimentos e entrevistas para posteriormente confeccionarmos um livreto juntamente com fotografias que retratam essas experiências e contatos que tivemos a oportunidade de vivenciar, sendo que alguns destes escritos também estará presente no site do Desobediência Sonora.

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Nessa primeira parte da ação audiovisual iniciamos a pedalada pela caatinga entre os licurizeiros, embuzeiros, cajueiros e mandacarus à partir do mês de janeiro. Nossa primeira entrevista foi com a querida Josefa, rezadeira que reside em um sitio próximo ao povoado Pedra Alta, Araci (BA). A entrevista foi realizada em sua casa no dia 6 de fevereiro de 2017. No mesmo dia, durante a noite fomos convidados para prestigiar a Festa do Cariru que estava sendo oferecida pela família de seu Fausto e dona Barbina, moradores da comunidade dos Bró, zona rual de Araci. Fomos com nossas bikes até o local onde estava sendo a realizada a festa do Cariru e tivemos a oportunidade de gravar os áudios dos sambas de roda e da cantoria de reis.
Outra pessoa importante e que representa a memória e história da região é a “dona” Pequena, 66 anos. Ela é rezadeira e costuma dar a Festa do Cariru em sua casa na zona rural próximo ao povoado Pedra Alta. Entre os dias 14 e 15 de fevereiro acompanhamos o Cariru oferecido pela Pequena e a oportunidade de entrevista-la para o projeto. Pequena nos contou sobre o Cariru, as lendas da região, os encantamentos e a sua trajetória como rezadeira.
Outra coleta de depoimento bem bacana foi no dia 22 de fevereiro com a dona Tidi, 79 anos, a última parteira ainda viva do povoado Pedra Alta e região. Tidi nos relatou muitas histórias interessantes enquanto parteira. No dia 24.2.2017 pedalamos até a roça de dona Flora, 72 anos e seu Satu, 91 anos próximo ao pé da Serra Grande para um bate papo. Aproveitamos para gravar em áudio as cantigas que Flora relembrou na época em que cantavam nas casas as quais se rezavam para os santos para pagar promessas.
No dia 27/02/2017 visitamos a casa de Eugenio, 54 anos e um conhecido feiticeiro da região dos povoados de Pedra Alta, Lagoa da Lage e Bento. Eugenio nos recebeu em sua casa e nos contou sua história no candomblé, nos contou sobre os segredos e encantamentos da Serra Grande e sobre o poder das plantas da caatinga.
A Pedalada passou pelo povoado de Pedra Alta a procura do compositor e cantador de reis de grande parte das festas de Cariru da região. Fabio dos Reis Sena, 30 anos, nos contou sobre seu contato com o samba de roda, com o Cariru e o reisado.
Outra entrevista bem bacana foi com um antigo pescador, ambientalista , salva vidas e catingueiro Zé Roberto, 52 anos, que nasceu e mora na beira do rio Itapicuru, o rio mais importante da região que está completamente seco. Mas tem um agravante, o rio Itapicuru está condenado a morte devido a seca e sobretudo a extração de ouro e diamante pela Vale do Rio Doce e uma empresa de mineração canadense chamada Yamana que possuem extração de minas alguns quilômetros rio acima da onde foi concedida essa entrevista próximo ao povoado Lagoa da Lage, Araci (BA). Zé Roberto nos falou sobre a caatinga sua flora e sua fauna e de como é necessário a preservação desse bioma tão rico. A entrevista foi concedida no dia 9 de março de 2016.
Durante nossos percursos acabamos conhecendo as mulheres que fazem parte da Associação das Mulheres de Pedra Alta. Dessa conexão com elas nos articulamos para a realização de um cine debate que aconteceu no local onde as mulheres da associação se reúnem toda primeira terça feira de cada mês. Após a exibição do doc. “Severinas” e do posterior bate papo, aproveitamos o momento para entrevistar as mulheres que fazem parte da associação. Os depoimentos foram coletados no dia 18 de março de 2016.
Outra interessante e agradável contato foi com a dona Santa, 54 anos, é artesã da comunidade de Morrinhos, Araci (BA). Ela faz esteiras, vassouras e outros artefatos se utilizando da pindoba extraída da palmeira Licuri, muito comum na caatinga.

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Pedalada #1 – Festa do Cariru

O Cariru é uma festa religiosa que contém a junção de elementos do catolicismo cristão branco e o da cultura de matriz africana. Os relatos a seguir são na verdade expressões que observamos e coletamos durante o percurso da ação audiovisual PEDALADA na zona rural do município de Araci (BA) entre os meses de janeiro e março de 2017. As pessoas que realizam o Cariru são devotas de alguns santos do catolicismo, entre eles, São Cosme e Damião, Santa Barbara e São Crispinho. Os devetos costumam fazer promessas à um determinado e em troca dessa promessa cumprida realiza-se a festa conhecida como Cariru. Uma característica fundamental é a de que a festa do Cariru é geralmente proposta e realizada pelas pessoas que tem filhos gêmeos. Após as crianças atingirem a idade de sete anos, os pais são orientados pelos pais de santo a oferecerem o Cariru no dia do aniversário dos respectivos filhos gêmeos como uma forma de obterem saúde. Durante a realização da festa acontece o momento do jantar, o Cariru, que é servida aos proprietários da casa onde está sendo realizada a festa. Os donos da casa são convidados a se sentarem á mesa juntamente com 21 crianças, todas vestidas ritualisticamente e ordenadas para a ocasião. O cariru oferecido é o vatapá, quiabo e galinha. Após o jantar ser oferecido aos donos da casa e as crianças, a seguir é destinado a todas as outras pessoas presentes. A festa do Cariru é repleta de musica do incio ao fim, podendo durar até o amanhecer do dia seguinte. As musicas são especificas para cada etapa do ritual sendo composta por samba de roda, cantoria de reis e o samba para a incorporação do caboclo.

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/w20zw9gfece1mf3/Pedalada+%231+-+Festa+do+Cariru.mp3

Pedalada #2 – Dona Pequena

Nessa segunda edição do podcast Pedalada – Ecologia Audiovisual , estamos apresentando o áudio com a entrevista realizada com Crescencia Modesto dos Santos, conhecida com Pequena, moradora na comunidade de Pau Seco na zona rural do município de Araci (BA). Essa entrevista nos foi concedida no dia 16 de fevereiro de 2017.
Pequena nos explicou sobre como acontece a Festa do cariru, ela , mesmo, é uma das pessoas da região que organiza e oferece o Cariru há mais de 30 anos. Pequena nos contou sobre como funciona a festa do Cariru, sobre a comida oferecida no dia da festa; nos contou sobre as musicas que são tocadas durante toda a duração da festa que pode se estender até o dia seguinte ao som de muito samba de roda, cantoria de reis e samba pra fazer com que os orixás incorporem nas pessoas que estão dançando nas rodas de samba. Outro aspecto mencionado sobre a festa é no que se refere às 14 ou 21 crianças que participam do processo ritualístico da festa, vestidas especificamente para esse dia, onde se é oferecido um jantar inicial para as crianças por parte dos donos da casa que estão promovendo a Festa do Cariru. Após as crianças se sentarem ao chão, em circulo e comerem o jantar oferecido, é, à partir daí que a comida é oferecida aos donos da casa e ao restante de todas as pessoas presentes na festa.
Pequena também nos disse sobre o desinteresse de boa parte das pessoas, inclusive, as mais jovens em prosseguir com essa pratica, essa cultura. Hoje em dia o Cariru oferecido por Pequena é bem mais simples e modesto , e, se, resume em oferecer um ou dois bolos, refrigerantes e doces para algumas crianças que participam; e, a reza, destinada ao santo homenageado no Cariru, nesse caso especifico é para São Cosme e Damião. Diferentemente de outros Carirus que ainda são oferecidos na região, onde se caracteriza pela presença de pessoas vindas de distantes povoados e comunidades da região , com a confecção de muita comida, como, galinhada, vatapá e quiabo; conta-se com a presença dos músicos cantadores de reis e de samba de roda e a festa muitas vezes costuma se estender até o amanhecer do outro dia.
Pequena nos disse sobre a incorporação dos santos durante os sambas de roda que acontecem na festa do Cariru. Mas, ela nos lembra que o santo não incorpora em qualquer um, não. Tem as pessoas certas, preparadas para recebe-los, e , nos diz que o momento do baixar do santo é algo emocionante e de uma sensação muito gostosa, agradável.
Além das histórias referentes ao Cariru, Pequena nos falou sobre a sua atuação como benzedeira e de como essa pratica está cada vez mais escassa na região, e de como os mais jovens em geral não tem mais interesse em aprender as rezas e as técnicas de benzimento.
Os relatos de Pequena também se direcionam sobre os encantamentos que acontecem sobre tudo, próximo ao rio Itapicuru e nas regiões de serra por todo o território. Ela nos falou sobre o espírito conhecido como Mãe D `água que costuma aparecer para as pessoas no rio Itapicuru e também sobre a Caipora, que é um espírito protetora das matas e dos animais; e que costuma arear, confundir as pessoas que sobem as regiões de serra, principalmente , as pessoas com a intenção de caçar animais. As pessoas areadas pela Caipora encontram dificuldades para acharem o caminho de volta pra casa e portanto, ficam perdidas e precisam contar com a ajuda de outras pessoas para realizarem o seu resgate e assim encontrarem o caminho de casa.
Pequena falou também, sobre a misteriosa ave Acauã, da família do gavião. A Acauã é muito conhecida na região pelos seus diversos cantos , e desses cantos, os mais curiosos são o canto anunciando chuva e o canto que anuncia a morte. Segundo as pessoas que moram na região, quando a Acauã emite o canto anunciando morte, é certeza, que alguém vai morrer dentro de no máximo três dias.

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/vgsxc22f0jak75t/Pedalada_%232_-_Dona_Pequena.mp3

Pedalada #3 – Fabinho, Cantador de Reisado

Nessa terceira edição do podcast Pedalada – Ecologia Audiovisual , estamos apresentando a entrevista concedida pelo Fabio Sena dos Reis, 30 anos de idade, morador do povoado Pedra Alta , Araci (BA). Fabinho, como ele é conhecido, é um dos poucos jovens que faz parte de um grupo de cantadores de reisado. Além de tocar alguns instrumentos, Fabinho, também, é um compositor. A primeira vez que que vimos Fabinho, foi em uma apresentação no mês de fevereiro de 2017 do grupo musical no qual faz parte, em uma apresentação na festa do Cariru, realizada na casa de seu Fausto e dona Barbina na comunidade negra rural dos Bró, Araci (BA). Nesse dia o grupo musical em que Fabinho faz parte cantou musicas de reisado e muito samba de roda.
A entrevista com Fabinho foi feita no mês seguinte em sua casa no povoado de Pedra Alta. Fabinho nos contou como começou a se interessar, desde bem jovem, pelo Reisado que passava nas estradas de terra da região indo de casa em casa fazendo as cantorias em dedicação aos santos católicos e oferecendo as rezas. Quando menino, ficava ansioso em ver passar os cortejos de reisados pelas estradas de terra. Ele começou desde muito jovem, a acompanhar os cortejos de reisados quando passavam em frente a sua casa.
O reisado é uma manifestação cultural que acontece em diversos territórios espalhados pelo Brasil. Cada um oferece algumas especificidades locais de como se organizam e se estruturam. O reisado se caracteriza por ser um cortejo de brincantes, como é conhecido as pessoas que participam efetivamente das folias de reis. O reisado representa a história bíblica que conta sobre a peregrinação dos três reis magos até a cidade de Belém. O reisado se desenvolve em cantos, danças, coreografias e muita musica. Os brincantes de reisados são essenciais para manterem a sociabilidade comunitária. Eles são responsáveis por renovarem certas crenças, laços sociais , costumes e valores ano após ano.
Percebe-se que o reisado promove e, além disso, é um importante articulador da reprodução das memórias de vida das pessoas que se envolvem por meio da amizade e parentesco. Hoje em dia a tradição do reisado se entrelaça com outros elementos surgidos no seio de uma cultura urbana e consumista. Esses novos valores, praticas e visões de mundo acabam de alguma forma, muitas vezes sutis, penetrando no modo de fazer e pensar nessas manifestações tradicionais. A constante movimentação e deslocamento de pessoas, principalmente, os jovens dessa região para os grandes centros urbanos, quando retornam ao seu local de origem trazem consigo outros valores e costumes para o local. Outro aspecto interessante é a absorção de outras visões de mundo e pensamentos advindos de elementos típicos dessa modernidade, que é a televisão, internet e também a própria escola. As novas formas de lazer e entretenimento vão contribuir enormemente para trazer indagações e reinterpretações das próprias pessoas locais sobre as manifestações e culturas tradicionais.
A entrevista concedida por Fabio Sena dos Reis, cantador de reisado, é um recorte de algo muito mais amplo e complexo de como se da o reisado nessa região de atuação da pedalada – Ecologia Audiovisual. Apresentamos aqui mais uma história de um sujeito produtor de cultura e que faz parte da história social e cultural dessa região.

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/5b08ujl9po0krrh/Pedalada+%233+-+Fabinho%2C+Cantador+de+Reis.mp3

Pedalada #4 – Dona Flora e as Cantigas de Roda
Nessa quarta edição do podcast Pedalada – Ecologia Audiovisual estamos apresentando o áudio da entrevista feita com dona Flora, moradora da localidade conhecida como Pé de Serra, zona rural do município de Araci (BA). Durante a coleta do depoimento de Flora, ela nos relembrou as antigas cantigas que eram entoavas e cantadas nas casas onde se ofereciam rezas dedicadas aos santos em retribuição há algum pedido alcançado e realizado pelos devotos.
As casas de rezas são as casas em geral das pessoas comuns que em determinados momentos e circunstâncias, após terem seus pedidos atendidos pelos santos, como forma de agradecimento pela graça ou benção alcançadas, as pessoas realizam as rezas em dedicação e como forma de agradecimentos aos santos pelas graças concedidas. Além, das rezas os moradores oferecem alimentação para os convidados que são seus vizinhos e pessoas que se deslocam de outras localidades da região para compartilharem esse momento de comunhão com a família que presta as homenagens e as rezas aos santos.
Segundo, Flora, as cantigas de roda acabaram. Elas não são mais realizadas , pelo menos, na região onde reside Flora. Mesmo, assim as letras e as musicas permanecem e resistem nas memórias, sobretudo das pessoas mais velhas. As cantigas aconteciam geralmente nos terreiros, que seria os quintais das casas das respectivas famílias que naquele momento transformam a sua moradia em uma casa de reza. Geralmente as pessoas se dirigem até o terreiro e forma-se um circulo e a partir daí as pessoas começam a entoar as cantigas acompanhadas do bater nas palmas das mãos. Especificamente nas cantigas de roda, não se tem o costume, o habito de se utilizar instrumentos de percussão ou musicais.
As letras das cantigas de roda referem-se sobre o cotidiano dos agricultores locais, então elas falam da agricultura, criação de animais, dos elementos na flora e e fauna da caatinga. Outras situações ilustradas pelas cantigas de roda são os amores, as amizades, os desafetos , as lendas e os encantamentos locais.
A entrevista concedida por dona Flora, faz parte de um projeto de resgate da história e memória desse território do interior do Estado da Bahia(BA). Essa ação audiovisual de resgate e o fazer emergir essas memórias e histórias através da utilização do audiovisual está em processo de construção , e recebe o nome de Pedalada – Ecologia audiovisual.

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/hrgp0kc7l522cgg/Pedalada+%234+-+Dona+Flora+e+as+Cantigas+de+Roda.mp3
Pedalada #5 – Dona Zefa, a Rezadeira

Nesta quinta edição do podcast Pedalada – Ecologia Audiovisual estaremos apresentando a entrevista concedida por Dona Josefa, a Zefa, que reside na localidade conhecida como Pé de Serra, zona rural do município de Araci (BA). Zefa, é conhecida na região como rezadeira/benzedeira e é uma das poucas pessoas que ainda realizam a pratica do benzimento em pessoas e animais.
Zefa nos disse que é sempre procurada em sua casa por pessoas da região, solicitando os seus conhecimentos como rezadeira para amenizar ou curar feridas, dores, mau olhado e outros males. Para a realização dos benzimentos, Zefa ,se utiliza de determinadas plantas e ramos encontradas na catinga. Segundo, ela, todo ramo é bento, ou seja, é criado por Deus, e com isso, é sagrado e pode ser utilizado durante os benzimentos. Zefa, nos relata sobre a dificuldade em encontrar nos dias de hoje as plantas que são essenciais para as rezas, como, por exemplo, a vassourinha e peão roxo, plantas essas, muito utilizadas nas praticas de rezas e benzimentos. Com a seca severa e o desmatamento desenfreado, se torna cada vez mais escasso a obtenção dessas plantas.
Em relação a cobrança de algum tipo de valor monetário que é feito em retribuição as rezas, isso nunca acontece. As “ rezas são coisas da palavra de Deus “, e portanto, não se cobra das pessoas para realizar as rezas. Em relação a busca das pessoas para se tratarem com a medicina convencional, tecnológica, Zefa diz não haver problemas e que as rezas e os benzimentos servem como um complemento e com isso tem a função de acelerar a melhora e cura das pessoas enfermas.
Reza pra levantar:

“quem reza essa oração
Pode abrir a porta e furar o mundo
Que nada pode
Quando eu pisar o meu pé no chão
O meu corpo será fechado.
Minha alma será lavada.
Sangue de Cristo tem o nosso amor
Maria reza e Jesus adora
Bendito seja a hora em que vou sair porta a fora”

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/z2yf1h4rgdf5jgf/Pedalada_%235_%E2%80%93_Dona_Zefa%2C_a_Rezadeira.mp3

 

Pedalada #6 – Seu Eugenio, Feiticeiro

Nessa sexta edição do podcast Pedalada – Ecologia Audiovisual, estaremos apresentando a entrevista concedido por Eugenio Sena de Matos, o Genio, que reside em uma localidade conhecida como Pé de Serra, zona rural do município de Araci (BA). Genio, nos relatou sobre o início do seu envolvimento com as praticas das rezas, benzimentos e o uso de plantas da caatinga especificas para diversos tratamentos. Genio, nos disse que foi através do contato com um famoso pai de santo da região, conhecido como, Boa, que o apresentou esse universo do candomblé e dos orixás. Genio, foi orientado pelo pai de santo a ser um rezador. Ele é procurado por diversas pessoas para fazer as rezas e indicar os banhos com ervas. Genio diz que tem: “ um dom que a gente nasce. Cada pessoa tem um dom”. Segundo, Eugenio, existem dois tipos de doença, aquela que e o medico consegue descobrir e tratar, e , outra, aquela doença espiritual que só os rezador conseguem detectar e tratá-la. Já faz mais de dezesseis anos que Genio é rezador.
A história da presença africana e indígena em tempos antigos na região é mencionada por Genio, que destaca a importante contribuição desses povos na religião e cultura da região. Para ele, a casa do pai de santo é comparável ao consultório de um médico.
Durante o depoimento, Eugenio nos conta sobre o inicio da sua relação com o candomblé e o universo dos orixás e o preconceito que sofre por uma parcela da população por ser adepto da religião de matriz africana. Ele nos disse que esse tipo de comportamento preconceituoso por parte de algumas pessoas advém da falta de informação, por falta de conhecer a cultura e religião originária dos povos africanos.
Eugenio nos relata sobre os encantamentos que existem ainda hoje na Serra Grande e em outras serras pela região. Esses encantamentos já eram conhecidos pelos indígenas que habitavam essa região. Segundo, Eugenio, a Serra Grande foi morada de povos indígenas, e, em alguns locais é possível encontrar fragmentos de cerâmicas e outros utensílios produzidos pelos indígenas. A Serra Grande é morada da caipora, uma entidade protetora das matas e ervas.
Além dessas informações descritas aqui, Genio nos conta sobre muitas outras questões e situações referentes a religião do candomblé, seu entendimento pessoal sobre o assunto e outras questões do cotidiano local.

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/dtpgow3slv3vgi4/Pedalada%236+-+Seu+Eugenio%2C+Feiticeiro.mp3

 

Pedalada #7 – Tidi, Parteira

No dia 22 de fevereiro de 2017, a Pedalada foi ao encontro de “dona” Tidi, que reside no povoado Pedra Alta, Araci (BA). Tidi é uma das ultimas parteiras, que temos conhecimento na região de Pedra Alta. Ela nos contou como se deu o seu envolvimento com a pratica de parteira pela região. Durante a sua narrativa, “dona” Tidi relembra de como nos tempos antigos, as parteiras eram sempre chamadas para atender as mulheres em trabalho de parto. Essa preferência na maioria das vezes em chamar as parteiras, era , sobretudo, devido as consideráveis distancias geográficas entre os povoados e outras localidades em relação as cidades mais próximas que obtinham hospitais e outros serviços de saúde para atenderem as mulheres grávidas; e, também existia a questão da confiabilidade nas mulheres parteiras que geralmente tinham um enorme vinculo afetivo com as pessoas das comunidades e uma considerável experiência com partos.
Os chamados que Tidi recebia para a realização dos partos, muitas vezes, provinham de comunidades rurais e outros povoados longiquos, e, portanto, o deslocamento se dava através do lombo de animais e muitas vezes aconteciam a pé e durante a noite. Caminhava-se longas distâncias por estradas de terra até chegar ao local onde seus serviços de parteira tinham sido solicitados.
Os partos realizados por Tidi foram inúmeros, ela mesmo não sabe dizer quantos foram ao certo. Nos, disse, que sempre realizou os partos devido a sua admiração e gosto pelas questões que envolvem a saúde e que não cobrava nenhum valor monetário para realizar os partos aos quais era chamada.
Durante o processo de coleta do depoimento , Tidi comentou sobre como antigamente as crianças nasciam muito mais saudáveis e atribui isso, principalmente a questão da alimentação: “ A gente em casa, comia carne assada com feijão e farinha; e não tinha gordura, não comia com óleo, essas coisa. Hoje é tudo comida de lata”.

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/p9xu95l5ljbj3l5/Pedalada+%237+-+Tidi%2C+Parteira.mp3

 

Podcast #8 – Zé Roberto e o Rio Itapicuru

A Pedalada esteve no dia 9 de março de 2017 na casa do pescador, ex caçador e sábio das coisas da caatinga, José Roberto, que nasceu e reside às margens do Rio Itapicuru, próximo ao povoado de Lagoa da Laje, Araci (BA). Zé Roberto nos relatou sobre as observações que faz dos animais e plantas para perceber a proximidade da s chuvas na caatinga. Zé Roberto diz ser portador de um “dom” que possibilita conversar com os animais que habitam a caatinga.
Zé Roberto nos relatou sobre as secas de anos anteriores que também deixaram o rio Itapicuru sem água, tal como o encontramos durante essa entrevista. Dessa vez a estiagem severa aliada ostensivamente ao desmatamento constante realizado por fazendeiros e pequenos camponeses contribui para o assoreamento do rio Itapicuru e a destruição der nascentes dos rios menores, afluentes do Itapicuru. A extração de ouro realizada pela Vale do Rio Doce e empresas mineradoras estrangeiras à aproximadamente 20 km rio a cima da onde estávamos , em direção ao município de Nordestina (BA) esta causando a morte gradativa do rio Itapicuru. As lembranças de um rio Itapicuru de águas límpidas e transparente; repleta de peixes de espécies e tamanhos variados, também fazem parte das memórias de pescador, Zé Roberto.

As memórias do rio Itapicuru e do cotidiano desse território permanecem extremamente vividas nas narrativas de Zé Roberto, que diz: “ Eu sou do tempo do carro de boi(…) sou do tempo em que o gado reinava livre, não tinha cerca, não. Era tudo mato, tudo caatinga. Eu sou do tempo em que as emas reinavam livres, ninguém podia pegar”.

Acompanhe mais informações da entrevista concedida por José Carlos, 54 anos, para a Pedalada – Ecologia Audiovisual.

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/v7vgybdm5yiqaz1/Pedalada_%238_-_Z%C3%A9_Roberto_e_o_Rio_Itapicuru.mp3

 

Pedalada #9 Associação de Mulheres de Pedra Alta

Durante o processo de pedalar em direção ao povoado de Pedra Alta, zona rural do município de Araci (BA), acabamos conhecendo uma interessante e necessária movimentação das mulheres que residem no povoado e são integrantes da Associação das Mulheres de Pedra Alta que existe desde 2003.

Em um dos muitos encontros que a Pedalada teve a oportunidade de ter com algumas mulheres que compõe o quadro de associadas desse movimento de mulheres, ocorreu a ideia de construção de uma atividade feita entre a Pedalada – Ecologia Audiovisual e a Associação das Mulheres que se configurou na realização de um cine debate no dia 18 de março de 2017, com a exibição do documentário Severinas e Feministas do Cariri. Os vídeos exibidos retratam a questão de invisibilidade e desigualdade que as mulheres enfrentam em seus cotidianos devido ao machismo presente nas relações de trabalho, familiares e nas relações sociais como um todo. Após as exibições dos materiais audiovisuais para um publico presente de mais de 30 mulheres, seguiu-se um debate sobre as questões abordadas nos filmes. A conversa sobre a organização das mulheres, o machismo presente em suas realidades política e sociais e a violência contra a mulher foram algumas das questões levantadas e discutidas pelas mulheres presentes.

As projeções dos documentários foram parte da semana em que a Associação das Mulheres organizou a Primeira Marcha das Mulheres no povoado de pedra Alta e, que contou com a fala de varias mulheres, encenação e intervenção teatral na praça do povoado e muitas entoações de cantigas. Na avaliação das mulheres , a Marcha que foi realizada teve aspectos muito positivos, sobretudo ao que se refere a aproximação de outras mulheres, muitas advindas de outros povoados, que não sabiam da existência da Associação e, também o estimulo para prosseguirem na construção da segunda edição da Marcha das Mulheres.

Para muitas mulheres a existência da Associação foi fundamental para tira-las do ambiente domiciliar e fazer com que elas começassem a trocar ideias, dialogar umas com as outras e de se organizarem para pensarem e promoverem diversas atividades em beneficio das mulheres e da população como um toda do povoado.A Associação presta alguns serviços jurídicos, principalmente em relação a questão da aposentadoria e o auxilio maternidade. Além, desses serviços essa movimentação das mulheres possibilita organizarem festas e trazerem oficinas para o publico. As dificuldades também são enormes, mas as mulheres não desistem e resistem!

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/haksgbh5w1tx4e3/Pedalada_%239_-_Associa%C3%A7%C3%A3o_de_Mulheres_de_Pedra_Alta.mp3

 

Pedalada #10 – Dona Santa, Artesã

No dia 10 de março de 2017, a Pedalada esteve na Comunidade dos Morrinhos, zona rural do município de Araci (BA) e acabamos conhecendo a artesã Cecília Maria de Jesus, 54 anos e que há muitos anos se dedica ao oficio de artesã com as pindobas extraídas do licuzeiro e outras palmeiras típicas da caatinga. Dona Santa, como é mais conhecida, faz vassouras, esteiras e trançados. Ela nos conta como é processo de obtenção da matéria prima utilizada para a fabricação de diversos utensílios que ela produz. Para a fabricação de vassouras, santa diz que além de extrair as folhas de pindoba ela também busca uma madeira especifica, retirada da arvore Ingó, para fazer os cabos das vassouras.

A extração insustentável e irresponsável das folhas das pindobas , faz com que se torne cada vez mais complicado encontrar a matéria prima para ser utilizada na confecção de uma serie de produtos que a dona Santa faz.

Bem, acompanhe na integra o áudio da entrevista concedida por dona Santa, moradora da comunidade dos Morrinhos , Araci (BA).

Download do áudio: http://www.mediafire.com/file/p1s7tl5xiidxipy/Pedalada+%2310+-+Dona+Santa%2C+Artes%C3%A3.mp3

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Textos do Pedalada

 

Musicas tocadas no Cariru

Quem labuta com São Cosme  Não pode facilitar  A merenda dele todo ano tem que da   xx xx xx   Cosme e Damião  Vem lavar as mãos  Todo mundo comeu  Só eu que não

xx xx xx

Samba de roda pra baixar o caboclo:

Ah! Vamos levantar  Essa mesa sim senhô  Vamos levantar A mesa do orixá

xx xx xx

Samba de roda pra baixar caboclo:

Santo Antonio bateu o sino  Que nossa senhora vem  Se não for engano meu  Santa Barbara vem também

xx xx xx

Fui pro mato tirar flor  Encontrei cajá no chão  Encontrei com Santa Barbara  São Cosme e São Damião

xx xx xx

Cosme e Damião  A sua casa cheira  Cheira cravo, cheira rosa Cheira flor de laranjeira xx xx xx

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Cantigas de roda
As cantigas de roda são cantadas nas casas nos dias de reza, os devotos fazem promessas para uma determinada santa e quando as promessas são atendidas realiza-se uma reza na casa do devoto, os cantadores de reis são convidados para cantar e tocar depois da reza, tem as cantigas de roda, a música de santo reis, cantigas para baixar as entidades. E no terreiro da casa , forma-se uma roda com pessoas de várias idades e começam a recitar versos que pode ser decorados ou inventados na hora, acompanhados de palmas e passos.
Eu atirei sofrer no pendão do mio
Eu atirei mas não matei no pendão do mio.
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Menina dos olhos pretos
Sombrancelhas de veludo
Teu pai é pobre
Mais teus olhos vale tudo.
…………………………………………….
Perto do meu peito
Tem duas chaves do Bomfim
Uma tranca, outra destranca
Quem quer bem não faz assim.
……………………………………………………..
Se eu soubesse que tu vinha
Sexta-feira de tardinha
Mandava varrer o terreiro
Com uma rosa lichandrinha.
…………………………………..
Sete mais sete são quatorze
Com mais sete vinte um
Tenho sete amor no mundo
Mas só tenho paixão por um.
……………………………………………
Gosto de morar no alto
Porque no alto eu vejo bem
Vejo a casa do meu sogro
E os olhos do meu bem.
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Detras daquela serra
Passa boi, passa boiada
Passa menina bonita
Do cabelo cacheado.
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Oi Lena, oi Zabé
Tu quer café com leite
ou leite com café
Oi Lena, Oi Zabé
Me diz que é.
…………………………..
Rasta a mala
Mala rasta
Tomaram meu amor
Mais não se gozou.
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A Caipora
A Caipora é um encantamento que muitos moradores da região rural de Pedra Alta, município de Araci no interior da Bahia já presenciaram e relatam suas experiências, segundo esses relatos a caipora é um espírito da caatinga que protege as caças dos caçadores, que pode se apresentar de diferentes maneiras como no corpo de uma mulher com voz aguda, e deixam as pessoas desorientas sem conseguirem se localizarem, ficando perdidas por horas ou até mesmo dias, sem conseguir achar o caminho de volta e também não conseguem lembrar como vieram parar no lugar onde estão. Ouviram-se assobios e se a pessoa estiver acompanhada de cachorros a caipora pode também se apresentar em forma de uma caça ou uma cabra velha. Acredita-se que para a caipora não deixar a pessoa ariada (desorientada). Antes de entrar na caatinga deve levar um pacote de fumo e deixar em um toco de árvore, o dia dela é sexta-feira.

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Acauã
É uma ave pertencente à família dos falcões, que vive em região montanhosa e canta para chover ou para avisar que alguém irá morrer. Costuma fazer o ninho em árvores altas ou em mandacaru para que os predadores não tenham acesso aos seus filhotes, a acauã voa sempre em dupla e o seu canto é tão alto que pode ser escutado em grandes distâncias, seu principal alimento é cobra, e costuma cantar em horários específicos às quatro horas da manhã; às onze horas, e também às dezoito horas. O canto anunciando a morte é diferente do canto para chover. Quando ela canta em cima de uma árvore seca e seu canto se estende por muitas horas sem interrupção é sinal que virá muita chuva no sertão baiano. Algumas pessoas também acreditam que acauã canta chamando a seca para o sertão. Aqui existe uma simpatia para a acauã parar de cantar que é emborcar os chinelos garantindo que nenhuma pessoa daquela casa venha a falecer.